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Por que o futebol ainda produz violência capaz de matar?

Uma rivalidade esportiva deveria terminar quando acaba o jogo. No futebol brasileiro, porém, a fronteira entre a paixão pelo clube e a violência há décadas é atravessada por uma parcela de torcedores que transforma o adversário em inimigo. O que aconteceu novamente em Salvador no último domingo, dois assassinatos, durante o Ba-Vi, não pode ser compreendido apenas como um problema de segurança pública. O episódio expõe uma questão social mais profunda: por que o futebol, um dos principais espaços de convivência e identidade coletiva do país, ainda é capaz de produzir episódios de brutalidade extrema?

Para especialistas, os casos registrados na cidade durante a partida do Barradão precisam ser analisados para além da ocorrência policial, embora a Justiça precise agir de maneira contundente e as investigações precisem avançar com rigor. José Alexandre Souza Borges, apontado como integrante da Bamor, morreu após ser perseguido e agredido na região da Avenida 29 de Março e da Via Regional. Segundo a Polícia Civil, seis homens foram presos e autuados por homicídio qualificado, tentativa de homicídio contra outras quatro pessoas, posse de artefato explosivo e promoção de tumulto. A Polícia Militar informou ainda que os envolvidos estavam com facas, soqueiras, fogos e artefatos explosivos. Cerca de 60 pessoas foram conduzidas durante a ocorrência.

Segunda morte

Uma segunda morte foi registrada no mesmo domingo, em Castelo Branco. Lucas dos Reis Bonfim, de 19 anos, que também era integrante da Bamor, morreu baleado. A Polícia Civil informou, porém, que os levantamentos iniciais não apontavam relação entre a morte de Lucas e o confronto que terminou com a morte de José Alexandre. A distinção é necessária porque, embora os dois casos tenham ocorrido no mesmo contexto de violência, não há, até o momento, confirmação de que tenham sido provocados pelo mesmo conflito.

Pesquisadores que acompanham o fenômeno há décadas afirmam que o comportamento violento não nasce da paixão pelo clube, e, além disso, identificam uma combinação de fatores que pode transformar a rivalidade em confronto: pertencimento ao grupo, busca por reconhecimento, disputa de poder, códigos de masculinidade, machismo, sentimento de vingança e uma cultura de intolerância que pode começar até mesmo dentro da família, antes de o jovem chegar a uma torcida organizada. Em determinados grupos, a violência deixa de ser apenas uma reação e passa a adquirir significado próprio, como demonstração de coragem, lealdade e força diante do rival.

O episódio se soma a uma história de confrontos que há décadas ultrapassa as arquibancadas e atinge ruas, bairros, transportes públicos e pessoas que sequer participam da rivalidade. o sociólogo Gustavo Mendez, ouvido pela Tribuna da Bahia, considera que a violência entre torcidas é uma manifestação de um problema social que ultrapassa a segurança pública. Para ele, machismo, incitação ao ódio, construção da rivalidade desde a infância e uma cultura de demonstração de força masculina ajudam a explicar por que o futebol pode se transformar em ambiente de confronto. “Não podemos permitir que a sociedade trate esses episódios como algo inerente ao futebol ou à própria existência das torcidas organizadas.

Análise

O sociólogo Carlos Alberto Máximo Pimenta, autor de estudos sobre torcidas organizadas, analisou o fenômeno a partir das relações construídas dentro desses grupos. Em trabalho publicado na revista São Paulo em Perspectiva, Pimenta sustenta que a violência entre torcedores precisa ser compreendida dentro dos processos de

identificação e construção de identidade que ocorrem entre os integrantes das organizadas. “A torcida, nesse processo, não é definida apenas pelo clube que apoia. Ela também se constrói pela oposição ao rival. O grupo adversário passa a ocupar um lugar simbólico de inimigo, enquanto o enfrentamento pode funcionar como uma forma de afirmação coletiva”, diz. Pimenta identifica, nesse universo, elementos como pertencimento, autoafirmação, virilidade e demonstração de força.

“Macheza” – A socióloga Heloísa Helena Baldy dos Reis, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), uma das pesquisadoras brasileiras que há mais tempo estudam violência e torcidas organizadas, também chama atenção para a composição predominantemente jovem e masculina de determinados grupos., Ela afirma que a  violência não pode ser atribuída às torcidas organizadas como um todo, mas a determinados indivíduos e grupos, inclusive pessoas que não pertencem formalmente às organizadas. Para Heloísa, existe entre alguns desses jovens uma disputa de “macheza”, na qual a disposição para enfrentar o rival passa a ser uma forma de demonstrar força e conquistar reconhecimento dentro do grupo. A pesquisadora chama atenção ainda para um mecanismo particularmente preocupante: a violência pode produzir prestígio. Em entrevista ao UOL, Heloísa afirmou que “jovens  violentos buscam esses ambientes para serem protagonistas de cenas que vão sair na TV e no jornal”. Segundo ela, há grupos que chegam a guardar reportagens sobre confrontos como registros de suas “vitórias” contra rivais.

Vingança pode ser motivo do histórico de casos do Ba-Vi

Outro componente aparece com frequência nos estudos sobre violência entre torcidas: a vingança. Uma agressão contra um integrante pode deixar de ser percebida como um  crime contra uma pessoa específica e passar a ser interpretada como uma ofensa ao grupo inteiro. A resposta, então, deixa de ser individual e pode ser apresentada como uma obrigação de lealdade.

O histórico do Ba-Vi reúne episódios que mostram como essa lógica pode se prolongar durante anos. Em abril de 2017, Carlos Henrique Santos de Deus, de 17 anos, foi morto a tiros nas proximidades da Fonte Nova depois de um Ba-Vi. O episódio contribuiu para a adoção da torcida única nos clássicos baianos, medida defendida pelo Ministério Público como uma tentativa de impedir o encontro de torcedores rivais dentro dos estádios.

Em abril de 2006, Hermílio Ribeiro Júnior, integrante da Torcida Uniformizada Os Imbatíveis, do Vitória, foi vítima de uma emboscada em Pernambués depois de uma partida contra o Cruzeiro, no Barradão. Ele foi esfaqueado e morreu dez dias depois. O assassinato provocou ameaças e episódios de retaliação entre integrantes das torcidas rivais. Em fevereiro de 2007, dois homens morreram em episódios relacionados à violência do Ba-Vi. Luiz Carlos Vítor Pereira, de 41 anos, morreu depois de ser agredido quando chegava ao Barradão. Pedro Sales Silva, de 43 anos, foi espancado após o clássico, quando voltava para casa.

Torcida única não acaba com o problema e punição é necessária, afirmam especialistas

Diante da sequência de confrontos e mortes associados à rivalidade entre as torcidas de Bahia e Vitória, o Ministério Público da Bahia recomendou, em 2017, a adoção da chamada torcida única nos Ba-Vis, como forma de impedir o encontro dos grupos rivais dentro dos estádios. A medida determina que apenas a torcida do clube mandante tenha acesso às arquibancadas, enquanto os torcedores do time visitante ficam impedidos de acompanhar a partida presencialmente. A decisão foi adotada após a morte do adolescente Carlos Henrique Santos de Deus, de 17 anos, assassinado a tiros nas proximidades da Fonte Nova depois de um clássico, em abril daquele ano.

Para especialistas, não resolve o problema porque os confrontos podem ser transferidos para fora dos estádios. Para os pesquisadores, é necessário combinar responsabilização criminal com trabalho permanente de prevenção, principalmente entre jovens.

Maurício Murad, sociólogo que pesquisa há décadas a violência e as mortes relacionadas ao futebol brasileiro, defende que o fenômeno seja tratado simultaneamente como problema de segurança e como questão social. Em estudo publicado pela Revista USP, Murad analisou casos de mortes de torcedores e cruzou dados quantitativos com informações de segurança pública, Justiça e pesquisas sociológicas e históricas para compreender as causas da violência e discutir mecanismos de repressão e prevenção. Segundo ele, o futebol não cria sozinho a violência existente na sociedade brasileira, mas oferece símbolos, grupos organizados, rivalidades históricas e ocasiões de encontro que podem potencializar conflitos já existentes.

“A impunidade também aparece nessa equação. Quando crimes graves não resultam em responsabilização efetiva, a punição deixa de funcionar como limite para quem considera participar de uma emboscada ou de um confronto. O problema passa pela capacidade do Estado de identificar os responsáveis, produzir provas, concluir investigações e fazer com que as condenações sejam efetivamente cumpridas”.

Fonte: Tribuna da Bahia.

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