Em meio a um cenário de juros elevados, instabilidade econômica e mudanças no comportamento dos consumidores, novas alternativas ao sistema bancário tradicional vêm ganhando espaço na Bahia. Enquanto os grandes bancos reduzem sua presença física e ampliam a oferta de serviços digitais, as cooperativas de crédito apostam na combinação entre atendimento presencial, participação dos associados e oferta de produtos financeiros para conquistar novos públicos.
Um dos exemplos desse movimento é o Sicredi Centro-Sul MS/BA, que já movimenta cerca de R$ 1 bilhão na Bahia, considerando aproximadamente R$ 500 milhões em depósitos e outros R$ 500 milhões em crédito. Em Salvador, são cerca de 11 mil associados e três agências, instaladas no Caminho das Árvores, na Graça e na Pituba. Ao todo, são cerca de 20 mil associados na Bahia. A instituição considera Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Simões Filho e Feira de Santana mercados prioritários para a expansão no estado.
O crescimento do cooperativismo financeiro na Bahia acontece em um momento em que a relação da população com os bancos passa por mudanças. A expansão dos serviços digitais reduziu a necessidade de atendimento presencial para uma parcela dos consumidores, enquanto o custo do crédito e o cenário de juros influenciam diretamente as decisões de famílias e empresas. Nesse ambiente, modelos diferentes dos bancos tradicionais começam a disputar espaço no mercado baiano.
Encontro
Foi nesse contexto que representantes do Sicredi estiveram na Tribuna da Bahia. O encontro contou com a participação de Walter Pinheiro, presidente, Marcelo Sacramento, vice-presidente, e Gerson Brasil, diretor de Economia. Além de apresentarem o funcionamento do sistema cooperativista, os representantes discutiram o atual cenário de juros no Brasil, os efeitos da instabilidade econômica e os desafios para ampliar o conhecimento da população sobre esse modelo de instituição financeira.
A discussão também passou pela dificuldade de acesso ao crédito em determinados momentos da economia e pela procura por alternativas capazes de atender diferentes perfis de consumidores e empreendedores. Na Bahia, esse movimento ganha uma dimensão particular porque a cooperativa já reúne uma base expressiva de associados e mantém presença física em Salvador, mesmo em um momento em que os grandes bancos vêm reduzindo suas redes de agências.
Desafios
Um dos principais desafios, porém, ainda é fazer com que o consumidor compreenda o que diferencia uma cooperativa de crédito de um banco convencional. Para Sadi Masiero, presidente do Conselho de Administração do Sicredi Centro-Sul MS/BA, a diferença está também na relação estabelecida com quem utiliza os serviços. Em vez de enxergar o consumidor apenas como um número dentro da instituição, a cooperativa procura fazer com que ele participe do próprio negócio. “Você não é apenas um CPF. Você é uma pessoa que faz parte da cooperativa, você é como todos os associados, faz parte de um conjunto”, afirmou Masiero, ao explicar a lógica do modelo.
Na Bahia, essa característica aparece também no perfil dos associados. Segundo as informações apresentadas durante a visita, na Bahia aproximadamente 50% são pessoas jurídicas e os outros 50% são pessoas físicas. A divisão mostra que a cooperativa não está concentrada apenas em grandes empresas ou em consumidores de maior renda, embora o segmento segmento empresarial e de MEIs apareça como uma das frentes de expansão. “Os cerca de R$ 500 milhões em crédito movimentados no estado têm participação relevante de pessoas jurídicas. Empresas podem recorrer a crédito, investimentos, meios de pagamento, recebimento, consórcios, seguros e soluções de gestão financeira”.
A proposta é atender diferentes perfis dentro da mesma estrutura. O pequeno, o médio e o grande empreendedor podem procurar a cooperativa, assim como o trabalhador e o consumidor que precisa de uma solução financeira. Na prática, isso inclui desde o dono de uma padaria ou de uma lanchonete até empresas de maior porte, além de pessoas que procuram crédito para comprar um veículo, financiar um imóvel, instalar energia solar ou realizar um investimento.
Variedades
Ao falar sobre a variedade de produtos, Masiero destacou que a instituição procura oferecer soluções para diferentes necessidades. “Tudo o que você possa precisar em termos financeiros”, afirmou. Entre as possibilidades citadas estão financiamento de veículos, crédito imobiliário, operações para empresas, investimentos e financiamento para instalação de energia solar.
A estratégia de expansão na Bahia passa justamente pela aproximação com esse público. Em Salvador, o Sicredi mantém três unidades e aposta no atendimento presencial como uma forma de explicar o funcionamento da cooperativa e apresentar as opções disponíveis. Segundo Masiero, o consumidor pode procurar uma agência para esclarecer dúvidas sobre crédito, investimentos e financiamento. “O presencial ainda existe”, disse.
A presença na capital também está inserida em um plano de expansão para outras regiões da Bahia. Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Simões Filho e Feira de Santana estão entre os mercados considerados prioritários. A instituição busca ampliar a presença tanto entre pessoas físicas quanto entre empresas e profissionais que procuram alternativas para crédito, investimentos e gestão financeira
Cooperativismo muda perfil no Brasil: com R$20 adquire-se cota de capital
20 reais – Para integrar a cooperativa, o interessado precisa adquirir uma cota de capital. Durante a conversa, foi informado que a contribuição inicial é de R$ 20. O valor integra o capital social do associado e, segundo as informações apresentadas, é remunerado ao final do ano. A participação, portanto, não representa apenas a abertura de uma conta, mas a entrada do consumidor na própria estrutura cooperativa.
O avanço observado na Bahia acompanha uma expansão mais ampla do cooperativismo de crédito no país. O Sicredi Centro-Sul MS/BA tem 37 anos de atuação, reúne mais de 200 mil associados e está presente em 98 municípios, sendo 54 na Bahia. São 60 agências, oito delas no estado. A instituição informa ainda possuir R$ 9,5 bilhões em ativos, R$ 7,9 bilhões em recursos totais, R$ 7,1 bilhões em carteira de crédito e mais de R$ 1,3 bilhão em patrimônio.
Cooperativas
Para Masiero, o crescimento mostra que o cooperativismo deixou de estar restrito a determinados segmentos da economia. A história do Sicredi começou com agricultores e uma estrutura pequena, mas o modelo avançou para outras regiões e passou a alcançar também grandes centros urbanos. “Hoje, no Brasil, nós temos mais de 10 milhões e meio” de associados em cooperativas de crédito, afirmou.
Segundo Masiero, o fortalecimento do sistema também ocorreu a partir da decisão de reinvestir parte dos resultados na própria estrutura. Ele explicou que, desde os primeiros anos, uma parcela era distribuída aos associados enquanto outra permanecia no patrimônio da instituição. O mecanismo permitiu que a cooperativa acumulasse recursos e ampliasse sua capacidade de operação ao longo do tempo.
Outro aspecto destacado pelo presidente é a relação construída entre os próprios associados. Segundo ele, o crescimento também ocorre pelo chamado “boca a boca”, quando pessoas que conhecem o sistema indicam a cooperativa para outras. A questão, acrescenta, não é apenas oferecer produtos, mas explicar ao consumidor que ele pode participar de uma estrutura na qual também tem interesse nos resultados e no crescimento da própria instituição.
O briefing apresentado pelo Sicredi aponta ainda uma economia média de R$ 3,1 mil por associado em 2025. Entre os diferenciais destacados estão o atendimento personalizado, o relacionamento de longo prazo e a conexão entre o crescimento financeiro da cooperativa e o desenvolvimento das comunidades onde atua.