A Organização Mundial da Saúde (OMS) veio a público nesta quarta-feira (24) para desmentir declarações feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que associou o uso de Tylenol — nome comercial do paracetamol — ao aumento de casos de autismo no mundo. A entidade foi categórica: não existem evidências científicas conclusivas que estabeleçam qualquer ligação entre o medicamento e o transtorno do espectro autista (TEA).
A fala de Trump ocorreu no início da semana, em um pronunciamento oficial ao lado de Robert Kennedy Jr., secretário de Saúde norte-americano e figura conhecida por propagar teorias conspiratórias, especialmente contra vacinas. O comentário rapidamente ganhou repercussão mundial, mobilizando cientistas e especialistas que alertaram para os riscos de disseminar informações sem base científica.
O que diz a ciência
O paracetamol é um dos analgésicos e antitérmicos mais consumidos do planeta, amplamente utilizado para o tratamento de dores e febre. Reconhecido pela comunidade médica como seguro para gestantes, é frequentemente indicado como alternativa ao ibuprofeno, que não deve ser utilizado durante a gravidez.
A farmacêutica Laura Marise, doutora em biociências e biotecnologia pela Unesp e criadora do projeto de divulgação científica “Nunca vi 1 cientista”, reforça que associar o uso do medicamento ao autismo não encontra respaldo em estudos sérios.
“O perigo está em espalhar informações sem comprovação científica. Isso gera pânico desnecessário em gestantes e pode levar à suspensão de tratamentos seguros, colocando mães e bebês em risco”, afirmou.
Ela explica ainda que pesquisas recentes investigam múltiplos fatores relacionados ao aumento dos diagnósticos de autismo no mundo, mas que nenhuma relação causal com o paracetamol foi estabelecida.
Especialistas reforçam segurança do paracetamol
O médico Romulo Negrini, vice-presidente da comissão de parto da Febrasgo e coordenador de Obstetrícia do Hospital Albert Einstein, alerta que toda gestante deve sempre procurar orientação médica antes de usar qualquer medicamento, mas destaca que o paracetamol segue sendo seguro.
“O uso do paracetamol durante a gravidez, quando feito sob supervisão médica, não oferece risco adicional ao desenvolvimento do bebê. É um medicamento amplamente estudado e reconhecido como opção adequada para gestantes”, reforçou.
Fake news e saúde pública
A fala de Trump ocorre em um contexto delicado: a disseminação de teorias conspiratórias sobre saúde. Robert Kennedy Jr., aliado do republicano e presente no anúncio, tem longo histórico de campanhas antivacina, muitas vezes desmentidas por instituições médicas e científicas.
Para especialistas, a repetição desse tipo de discurso pode afetar diretamente a confiança da população em tratamentos seguros e políticas de saúde pública, criando um terreno fértil para desinformação em escala global.
O papel da OMS
Com a nota oficial, a OMS buscou conter os impactos da fala de Trump e reafirmar a importância da ciência no debate público. A entidade destacou que, embora pesquisas continuem sendo realizadas, não há qualquer base para associar o uso do paracetamol na gravidez ao autismo.
O episódio reforça um ponto central: líderes globais, ao ocuparem tribunas internacionais, têm o dever de responsabilidade na comunicação sobre saúde pública. Para a comunidade científica, declarações sem respaldo podem custar caro, principalmente quando se trata de decisões tomadas por milhões de gestantes em todo o mundo.