Desde 17 de outubro, um grupo de manifestantes ocupa diariamente a praça do Rossio, no centro de Lisboa. É a Acampada, um movimento que convida pessoas a montar barracas em praças públicas a fim de pressionar o governo português sobre a crise da habitação no país.
Entre os porta-vozes do movimento, um sotaque carioca chama a atenção: o da assistente de administração Priscila Valadão, 46. Ex-missionária, ela chegou a Portugal quase por acaso em 2016 e ficou.
A Acampada de Lisboa montou o primeiro acampamento depois de uma manifestação contra um pacote de leis sobre habitação que o governo quer aprovar. Entre as medidas estão o fim do teto de 2% para o aumento dos aluguéis, cauções sem limite de valor e até três meses de aluguel adiantados para assinar um contrato.
Priscila Valadão foi “dar uma olhada” no movimento quando os ativistas decidiram fazer a primeira assembleia. Militante do PCP (Partido Comunista Português) e já integrante de outros movimentos ligados à habitação, como o Movimento Vida Justa, ela foi conversar com a organização e acabou convidada para ser “mestre de cerimônias” da mobilização.
Depois disso, falou com a imprensa portuguesa, participou de debates nas emissoras do país e representou o movimento no debate público. A voz da brasileira não agradou a todos.
Nuno Melo, ministro da Defesa, disse achar engraçados “os sotaques dos manifestantes” e relacionou a crise da habitação, que se agrava em Portugal, ao fluxo imigratório dos últimos anos. “Foi impressionante ver uma pessoa do governo soltando uma fala tão abertamente xenófoba como essa”, diz ela.
Além de Nuno, o secretário de Estado adjunto e da Presidência e da Imigração, Rui Armindo Freitas, também não aprovou a participação de imigrantes nas manifestações. Na última terça-feira (3), em debate no parlamento, o político disse que os estrangeiros que participarem das manifestações pela habitação e que “colocarem em risco a ordem pública” podem ter as suas autorizações de residência canceladas.
Priscila recebe ameaças de agressão e até de morte diariamente nas redes sociais. “Ando escoltada por companheiros de luta para ir e voltar do trabalho, mas não tenho mais medo dessas pessoas. Elas se irritam porque consigo debater e pegá-los em sua hipocrisia”, diz.
Apesar das críticas, Priscila acha completamente natural ter uma imigrante como porta-voz desse tipo de movimento. “Quando você pensa que 10% da população portuguesa é imigrante, é claro que vai ter estrangeiros articulando em todos os espaços”, afirma. “Ainda assim, mesmo com todos os ataques e ameaças, é importante fincarmos o pé junto aos portugueses para reivindicar direitos básicos de existência.
Acampada desagrada o governo português
Desde que começou, a Acampada já foi alvo de três operações policiais de desmobilização. Nessas intervenções, agentes dispersaram os manifestantes com balas de borracha e gás de pimenta. A organização estima que cerca de 90 pessoas foram detidas, além de centenas de feridos. “Eles estão dando cacetadas na cabeça, o que o protocolo da polícia não permite”, diz Priscila.
De acordo com a organização, o movimento já teve pelo menos 180 barracas montadas no centro de Lisboa. Na segunda-feira (2), a Acampada ganhou na Justiça um processo que permite que a barraca de uma das manifestantes, Renata Cambra, fique montada na praça do Rossio até 24 de novembro. A decisão abriu precedente para que outras barracas sejam montadas sob a mesma condição.

