A situação da secretária municipal de Educação de Ilhéus, Evani Cavalcante, é insustentável no governo Valderico Júnior.
Segundo informações obtidas pelo Blog do Gusmão, Evani se sente isolada. Ela avalia que passou a ser tratada como uma espécie de bode expiatório dentro do governo.
Esse ambiente piorou após o depoimento do advogado e consultor de licitações Isnar Augusto de Jesus Santos.
Isnar é ligado ao grupo político do prefeito de Salvador, Bruno Reis. Ele tem contrato com o município de Ilhéus no valor de R$ 30 mil por mês para prestar consultoria em licitação.
A investigação da Polícia Federal apura possíveis irregularidades na aquisição de merenda escolar pelo município de Ilhéus.
Segundo a apuração do blog, Isnar teria dado aval para a contratação da empresa RS Santiago. A empresa passou a fornecer alimentação escolar ao município por meio de contrato emergencial, no valor de R$ 15,5 milhões.
Isnar prestou depoimento à Polícia Federal no dia 16 de junho. Ele foi ouvido pela delegada Denise Kruschewsky, responsável pelo inquérito.
No depoimento, Isnar atribuiu à secretária Evani Cavalcante a decisão pelo contrato emergencial.
Ao mesmo tempo, ele amenizou a avaliação sobre a conduta da secretária. Isnar afirmou que Evani estava muito preocupada com a possibilidade de estudantes da rede municipal ficarem sem alimentação.
Evani teria se emocionado algumas vezes com essa possibilidade, segundo o consultor.
Isnar também apontou a secretária como favorável à prorrogação do contrato.
O contrato emergencial com a RS Santiago durou seis meses. Em agosto de 2025, o governo discutiu a prorrogação do acordo.
Sobre esse ponto, há duas versões.
Uma versão aponta que o governo Valderico queria prorrogar o contrato emergencial, no valor de R$ 15,5 milhões, e fazer um aditivo de mais R$ 15,5 milhões.
Outra versão indica que o governo queria apenas ampliar o prazo do contrato, sem novo valor no mesmo patamar.
De acordo com o depoimento de Isnar, Evani teria sido favorável ao aditivo.
Pela versão da secretária, o município não gastou R$ 15,5 milhões no contrato emergencial da merenda escolar. O valor efetivamente gasto em 2025 foi de R$ 5,8 milhões. Alguns pagamentos não foram realizados por falta de entrega.
Evani também afirma que a despesa com merenda escolar em 2025 foi inferior ao valor gasto em 2024, último ano da gestão do prefeito Marão.
Essa é a versão apresentada pela secretária.
Evani não recebeu bem a atribuição de responsabilidade feita por Isnar. De acordo com informações obtidas pelo blog, ela não pretende permanecer no governo. A secretária se prepara para deixar o cargo até o fim deste ano.
Outro ponto chama atenção.
Isnar presta consultoria ao município, mas não assina pareceres.
O governo Valderico utilizou pareceres da advogada Ana Carolina Menezes Dantas, gerente de licitações do município, para respaldar o contrato emergencial.
Como gerente de licitações, Ana Carolina não tem atribuição para emitir pareceres. Essa atribuição é da Procuradoria-Geral do Município.
Segundo informações obtidas pelo Blog do Gusmão, os pareceres de Ana Carolina foram um dos motivos do pedido de exoneração do então procurador-geral do município, Michel Mendonça.
Ana Carolina Menezes Dantas também já prestou depoimento. Ela foi ouvida no dia 15 de junho.
O depoimento de Isnar trouxe um cenário novo para a investigação.
Isnar afirmou que, no dia 10 de agosto de 2025, o prefeito Valderico Júnior participou de uma reunião que tratou do aditivo no contrato emergencial da merenda escolar.
Antes, o Blog do Gusmão havia informado que não havia informação sobre participação direta do prefeito nessa etapa do processo.
Agora há essa informação nova.
Porém, ela não é suficiente para cravar que o prefeito fez direcionamento do contrato para a RS Santiago. Também não há nenhuma prova de que o prefeito tenha participado de um suposto superfaturamento.
Uma nutricionista de carreira do município também relatou à Polícia Federal que participou de uma reunião no gabinete do prefeito para tratar da merenda escolar.
O nome da servidora será preservado.
Conforme a apuração, essa nutricionista levou ao prefeito vários problemas na gestão da alimentação escolar.
Ela já havia feito denúncias internas e manifestado insatisfação com a forma como os alimentos chegavam às escolas.
Entre os problemas apontados estavam carne com osso, frango inteiro, manejo inadequado dos produtos e dúvidas sobre a qualidade dos alimentos entregues.
A nutricionista prestou depoimento no dia 6 de junho.
Até o momento, 13 pessoas já foram ouvidas na investigação.
A secretária Evani Cavalcante disse que o então procurador-geral Michel Mendonça teria dado parecer favorável ao contrato emergencial.
Michel Mendonça nega essa informação de forma veemente.
Michel também já prestou depoimento.
Até agora, não há parecer assinado por Michel Mendonça com aprovação ao contrato emergencial da merenda escolar.
Os depoimentos que apontam conhecimento do prefeito sobre o contrato emergencial podem abrir uma nova discussão jurídica.
Há a possibilidade de a juíza da 1ª Vara Criminal de Ilhéus, Emanuele Vita, avaliar se tem competência para presidir o processo.
Isso pode ocorrer caso a investigação passe a alcançar também o prefeito.
Em regra, juiz de primeiro grau não preside processo contra prefeito em crime comum. Nesses casos, a competência costuma ser do tribunal de justiça estadual.
Se houver necessidade de investigação direta contra o prefeito, e se a competência for da Justiça comum estadual, o caso pode ser remetido ao Tribunal de Justiça da Bahia.
Nesse cenário, o tribunal poderá definir um desembargador para acompanhar o processo.
É importante deixar claro: até este momento, há investigados. Não há culpados.
O que existe é uma investigação em curso, com depoimentos, versões e documentos sob análise.