Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Heranças dos povos Banto, Daomé e Iorubá moldam ‘baianidade’, defendem estudiosas

As influências de povos africanos na Bahia moldaram muito do que se entende como “baianidade” nos dias atuais. Essas heranças vão além da gastronomia e da música, chegando a noções profundas como relações familiares, a relação dos baianos com a morte e uma série de outras questões subjetivas.

Em entrevista, a doutora e pesquisadora Yêda Antonita Pessoa de Castro, conhecida por dedicar a vida ao estudo das línguas africanas no português brasileiro, avalia que os povos africanos trouxeram um “jeito de viver” para o Brasil que vai muito além da língua.

Segundo ela, muito se referencia a língua do povo Iorubá — vindo da África Ocidental, região que corresponde à Nigéria, Benim e Togo — mas os povos Daomé e, principalmente, Banto (vindo da África Central, onde estão países como Cabo Verde, Congo, Quíloa e Zimbábue) também foram trazidos ao Brasil.

“Aqui na Bahia, nós fomos o povo de maior presença de escravizados do Brasil durante mais de três séculos, porque houve um determinado momento entre 200 anos, em que nós tínhamos uma população de negros e mestiços superior à presença de portugueses e de outros povos europeus”, afirma.

Além da influência desses povos na fala de um português marcado pelos termos africanos em todo o Brasil, foi também através deles que uma série de costumes foram enraizados no dia a dia dos baianos.

“[Há] Costumes que a gente às vezes nem percebe, que são africanos. Na Semana Santa, na Sexta-feira Santa [dia em que se recorda a morte de Jesus Cristo], nós comemos o dia inteiro comida com dendê, o dia inteiro nós ‘festejamos’ a morte de Cristo. Isso é uma tradição africana”, pontua a pesquisadora.

“O africano não comemora a vida, mas sim a morte. Por essa razão, nós também aqui comemoramos a morte de Cristo”.

Esse traço também pode ser observado na tradicional Irmandade da Boa Morte, no Recôncavo Baiano, onde mulheres mantêm tradições afro-brasileiras de ritos católicos, preservando a memória do povo negro escravizado no estado e fortalecendo as práticas religiosas mantidas historicamente por essas pessoas.

A subjetividade entranhada nessas manifestações culturais reflete a formação do caráter do povo baiano. Para a pesquisadora, o povo brasileiro criou um novo jeito de viver, transformando não só as heranças africanas, mas também europeias e dos povos originários.

“[A] Lógica de pensar e se relacionar, que nós temos aqui, é uma mistura perfeitamente completa. (…) O maior exemplo que nós temos é o da religião. Não existe sincretismo no Brasil. O que existe no Brasil é a acomodação de dois pensamentos, de duas religiões, que se fundiram e [se tornaram] o cristianismo brasileiro [e] baiano”, defende Yêda.

Via de mão dupla: a influência do Brasil na diáspora africana

Essas heranças são parte de um passado traumático para o povo brasileiro, uma vez que a chegada dos africanos veio acompanhada da colonização e da escravização. São marcas que ainda afetam a população, que enfrenta dificuldades no processo de autorreconhecimento.

Para a professora, curadora, artista e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paola Barreto, pensar na relação Brasil x África como uma via de mão dupla é uma forma de superar o trauma da colonização.

Responsável pelo grupo de pesquisa Balaio Fantasma do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos da Ufba, Paola teve uma série de trocas com artistas da diáspora africana e percebeu que, além de se reconhecer no Brasil, alguns vêm para cá a fim de se reconectar com a própria história.

Compartilhe essa matéria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Cookies: guardamos estatísticas de visitas para melhorar sua experiência de navegação. Saiba mais em nossa política de privacidade clicando aqui.