Cada vez mais isolado no cenário internacional e enfrentando pressão crescente dentro de Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu se reúne nesta segunda-feira (29) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington. O encontro, previsto para as 12h (horário de Brasília), pode ser decisivo para os rumos da guerra em Gaza, já em seu segundo ano.
Nos últimos dias, diversos países — incluindo França, Canadá, Reino Unido e Austrália — reconheceram oficialmente o Estado da Palestina, movimento que reforça o isolamento diplomático de Israel. Em resposta, Netanyahu dobrou o tom em discurso inflamado na Assembleia Geral da ONU, prometendo “terminar o trabalho” contra o Hamas, mesmo diante de pressões internacionais por um cessar-fogo.
O plano de Trump
Na contramão da rigidez de Netanyahu, Donald Trump apresentou um plano de 21 pontos para pôr fim ao conflito. A proposta prevê:
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cessar-fogo permanente em Gaza;
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libertação imediata dos reféns israelenses;
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retirada gradual das tropas israelenses;
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futura governança do enclave sem a presença do Hamas.
Segundo fontes diplomáticas, líderes árabes e muçulmanos receberam a proposta de forma positiva, ainda que pontos cruciais, como a participação da Autoridade Palestina na governança de Gaza, sejam considerados inaceitáveis para Netanyahu.
Trump, em tom otimista, declarou em sua rede Truth Social: “Temos uma oportunidade real de alcançar algo grandioso no Oriente Médio. Pela primeira vez, todos a bordo para algo especial. Vamos conseguir!”
Pressão interna
Além da pressão internacional, Netanyahu enfrenta protestos semanais dentro de Israel. Milhares têm ocupado as ruas pedindo um cessar-fogo imediato e o retorno dos reféns sequestrados em 2023. Famílias de vítimas também apelaram diretamente a Trump, exigindo que o presidente americano use sua influência para forçar um acordo.
Em Tel Aviv, manifestantes empunharam cartazes com frases como “Parem a guerra” e “Tragam nossos filhos de volta para casa”, expondo a fragilidade da coalizão governista. Especialistas apontam que a dependência de Netanyahu do apoio da extrema direita dificulta concessões. Líderes desse grupo já ameaçaram deixar o governo caso o premiê aceite a participação da Autoridade Palestina no pós-guerra.
Impasse sobre segurança
Outro ponto controverso do plano de Washington é a criação de uma força internacional de segurança para assumir o controle de Gaza após a retirada israelense. A proposta prevê tropas palestinas e de países árabes, mas sem clareza sobre comando e objetivos.
Para analistas como Ksenia Svetlova, diretora da ONG Ropes para a Cooperação Regional, o projeto é inédito, mas arriscado: “Esse plano internacionaliza o conflito de Gaza de uma forma nunca vista. Mas sem diretrizes claras, a imprevisibilidade é total.”
Números da guerra
O conflito atual começou com o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou 1.219 pessoas em Israel, em sua maioria civis. A ofensiva de retaliação israelense já causou mais de 66 mil mortes em Gaza, também majoritariamente civis, segundo dados do Ministério da Saúde local reconhecidos pela ONU.
Quase dois anos depois, Netanyahu insiste na narrativa de “eliminar o Hamas”, enquanto Trump aposta em diplomacia pragmática e no peso político dos EUA como último aliado de Israel. A reunião desta segunda-feira pode ser o divisor de águas entre a continuidade da guerra e uma possível negociação de paz.