“O Nepal enfrenta sua pior crise em décadas, após uma série de protestos violentos liderados pela Geração Z desencadearem o colapso do governo. Os atos começaram após o bloqueio de plataformas de redes sociais no país e rapidamente se transformaram em manifestações contra a corrupção, má governança, inflação e o agravamento das condições econômicas.
A medida que deu início à crise foi o bloqueio de plataformas como Facebook, Instagram, X (ex-Twitter), YouTube, Reddit, LinkedIn, Snapchat, Pinterest e Rumble, por não estarem registradas no Ministério das Comunicações e Tecnologia da Informação. A decisão do governo foi interpretada como um ato de censura e gerou forte indignação entre os jovens.”
Que revolução seria essa, a partir da proibição de acessar o mundo, fechando essa ou aquela rede do [Mass-media] no Nepal, onde destruir tudo lá, está na ordem do dia ou será que serve de recado para o decadente EUA? O que diria, Trotsky, Lênin, Rosa Luxemburgo, Milton Santos, Maria Filipa ou Antônio Gramsci, sob esses tempos nessa minha abstração dessa história do mundo?
De forma proposital faço uma complexa abstração dessa crise política no Nepal, misturando eventos atuais com reflexões de grandes pensadores. Imagino ser uma excelente forma de analisar as dinâmicas de poder, tecnologia e mobilização social.
É importante notar que a situação no Nepal é um evento real, e a minha análise de uma “revolução” a partir do bloqueio de redes sociais pode ser interpretada de diversas maneiras.
O protesto da Geração Z não é, a rigor, uma “revolução” no sentido clássico de uma derrubada total do sistema, mas sim uma revolta com potencial de transformação.O bloqueio das redes sociais no Nepal foi o estopim de protestos que já tinham uma base de insatisfação popular. A Geração Z no Nepal, como em muitas partes do mundo, usa as redes sociais como seu principal meio de comunicação, ativismo e acesso à informação.
O bloqueio não apenas limitou a comunicação, mas foi visto como uma tentativa de controle e censura, um ataque à liberdade de expressão e à autonomia individual. Os protestos, portanto, não são apenas sobre o acesso a plataformas digitais, mas sobre a corrupção e a economia, algo que tem sido comum sob essa hegemonia: o capitalismo.
As redes sociais são a ferramenta que amplifica a indignação e permite a coordenação das manifestações. O que acontece no Nepal ou a meu juízo, não é uma “revolução” no sentido de “destruir tudo”, mas uma tentativa de mudança por meio da pressão social e política. Será mesmo?
Ao abstrair como alguns pensadores clássicos interpretariam esses eventos, apenas busco algumas perspectivas de quem teorizou esses ou aqueles tempos de crises e possíveis saídas ou não.
Lenin e Trotsky: eles analisariam a crise sob a ótica da luta de classes, nos dizendo que a geração Z, é uma vanguarda impulsionada por contradições do sistema capitalista — má governança, inflação e economia precária. A proibição das redes sociais seria vista como uma tática do Estado para reprimir a organização da classe trabalhadora (ou, neste caso, os jovens precarizados). Para eles, a tecnologia (as redes sociais) é uma ferramenta que pode ser usada tanto pelo poder quanto pela oposição, e a crise em Nepal mostra como a Geração Z usou essa ferramenta para desafiar o poder.
Rosa Luxemburgo: ela enfatizaria a importância da espontaneidade das massas. Em sua visão, a revolta não é planejada por uma vanguarda, mas surge organicamente da insatisfação popular. A ação do governo de Nepal, ao bloquear as redes sociais, foi o catalisador que inflamou a revolta popular. Ela diria que a Geração Z, de forma espontânea e descentralizada, encontrou uma forma de resistência, usando as redes sociais para transcender a censura e criar um movimento de massa.
Milton Santos: o geógrafo brasileiro olharia para o evento pela perspectiva da globalização e do espaço geográfico. Ele diria que o que acontece em Nepal não é um evento isolado, mas uma manifestação das desigualdades e da influência da globalização no Terceiro Mundo. As redes sociais são, na visão de Santos, um exemplo do “meio técnico-científico-informacional”, que conecta o global ao local. A crise mostra como as dinâmicas de poder global (as grandes plataformas de tecnologia) e local (o governo de Nepal) se chocam, gerando instabilidade.
Maria Filipa: como um dos ícones da resistência na Bahia do século XIX, ela provavelmente não teria um texto teórico sobre a tecnologia, mas sua perspectiva seria de luta e resistência popular. Ela veria a Geração Z de Nepal como uma nova forma de “caboclos” que lutam contra um poder opressor. A sua “arma” não é a espada, mas o smartphone. Sua história de luta contra os portugueses poderia servir de inspiração para a Geração Z em sua luta contra a opressão do governo.
Antonio Gramsci: o pensador italiano olharia para a situação em Nepal através da lente da hegemonia cultural. Para Gramsci, o poder não é apenas imposto pela força, mas também mantido através da cultura e do consentimento. O bloqueio das redes sociais, em sua visão, seria uma tentativa do Estado de Nepal de impor sua hegemonia, silenciando as vozes que desafiam sua narrativa. Ele diria que a crise mostra a fragilidade dessa hegemonia, e que a Geração Z está desenvolvendo uma “contra-hegemonia” através da comunicação digital. A luta, para Gramsci, é tanto no plano cultural quanto no político….
Um Recado para o Ocidente?
A resposta não é simples, mas é possível fazer paralelos. O uso de redes sociais para protestos não é exclusivo do Nepal. A Primavera Árabe, por exemplo, foi um dos primeiros grandes movimentos a utilizar o Twitter e o Facebook para a mobilização. Movimentos como o Black Lives Matter nos EUA também se organizaram e ganharam força por meio dessas plataformas.
A crise em Nepal, portanto, pode ser vista como um “aviso” para governos de democracias ocidentais. Ela demonstra a importância crítica das plataformas de comunicação digital na vida política e a vulnerabilidade dos governos que tentam controlá-las. A crescente polarização e o debate sobre a liberdade de expressão e a censura nos Estados Unidos, outro exemplo, mostram que a luta pela hegemonia digital é um fenômeno global, e o que aconteceu no Nepal pode acontecer em qualquer lugar, lá, por aqui…
Não esqueçamos que o tempo é de uso intenso de [novas tecnologias] que se inicia lá no século XVIII de forma agressiva, perversa: a revolução industrial…, o Ser desceu da árvore, por exemplo!
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Bibliografia que dialoga bastante sobre tecnologia, ativismo digital, poder, hegemonia etc, etc, etc.
1. Ativismo digital hoje. Política e cultura na era das redes. Organizadores: Rosemary Segurado, Cláudio Penteado, Sérgio Amadeu da Silveira. Editora Hedra, 2021.
2. Redes, liberdades e controle. Uma genealogia política da internet — autor: Benjamin Loveluck; tradução por Guilherme João de Freitas Teixeira. Editora Vozes, 2018.
3. Democracia e Redes Sociais. Desafio de Combater o Populismo Digital.Extremista.Alexandre de Moraes. Editora Atlas/2024.
4. O marxismo ocidental. Uma história dos debates teóricos sobre a revolução e a sociedade. Perry Anderson.1976. Editora: Boitempo.
5. As heroínas da independência da Bahia. Eduardo Oliveira. 2017Editora: Via Littera.
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*Joilson Bergher/Educador Brasileiro!