Enviado especial a Nova York – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou sua agenda em Nova York em meio a uma das maiores crises diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos nos últimos 200 anos. Na véspera de seu aguardado discurso de abertura na Assembleia-Geral da ONU, marcado para esta terça-feira (23), o governo americano, liderado por Donald Trump, anunciou uma nova leva de punições contra autoridades brasileiras, gerando forte repercussão no cenário político e internacional.
Entre as medidas, confirmadas pelo Departamento de Estado norte-americano, estão restrições de visto a integrantes do governo e do Judiciário brasileiro, além de sanções financeiras contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o Instituto Lex, ligado à família. Também foram atingidos o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que chegou a cancelar sua participação nos compromissos oficiais em território americano devido às limitações impostas.
Ajustes no discurso e pressão diplomática
O clima de tensão obrigou Lula e sua equipe a revisar, até os últimos minutos de segunda-feira (22), o tom do discurso que abrirá os trabalhos da ONU em seu 80º aniversário. A fala, considerada a mais importante da política externa brasileira, deve ser marcada por críticas diretas à postura de Washington, tratada pelo governo como “agressão” e tentativa de interferência na soberania nacional.
O Itamaraty já se manifestou formalmente, enviando uma carta de protesto ao secretário-geral da ONU, António Guterres, em repúdio às medidas. Paralelamente, Lula pretende aproveitar a visibilidade do púlpito da ONU para reforçar a defesa da democracia brasileira e rebater o que considera ataques injustificados do governo americano.
Encontros e compromissos paralelos
Apesar do turbilhão diplomático, Lula manteve parte de sua agenda pública em Nova York. Participou de uma conferência em apoio à criação do Estado palestino, deu entrevista ao canal americano PBS e se reuniu com o CEO do TikTok, Shou Zi Chew, na residência diplomática brasileira em Manhattan.
Em entrevista, o presidente afirmou que “o comportamento de Trump é inacreditável” e criticou duramente a decisão de aplicar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. Segundo Lula, a medida é “absurda” e revela que a motivação é mais política do que comercial. Questionado sobre a relação com o republicano, Lula disse nunca ter conversado diretamente com Trump, mas indicou disposição em dialogar: “Na hora que o presidente Trump quiser conversar sobre política, eu também converso sobre política”.
O que Lula deve defender na ONU
Fontes ligadas ao Planalto afirmam que Lula usará o espaço na Assembleia-Geral para:
-
Reafirmar o papel do Brasil como defensor da soberania nacional e da democracia;
-
Criticar a paralisia da ONU, em especial do Conselho de Segurança, dominado pelo poder de veto das grandes potências;
-
Defender o fortalecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC), alvo de bloqueios do governo Trump;
-
Cobrar financiamento climático e ações efetivas dos países ricos, em sintonia com o Acordo de Paris, abandonado novamente pelos EUA há dois meses da COP-30, marcada para Belém (PA);
-
Posicionar-se em relação aos conflitos internacionais, com críticas aos ataques aéreos no Oriente Médio e apoio a negociações de paz na guerra da Ucrânia.
Clima de embate
Analistas avaliam que Lula deverá assumir uma postura antagonista em relação a Trump, trazendo de volta o tom de confrontação que marcou momentos de sua política externa em mandatos anteriores. O discurso, no entanto, também deve buscar apoio de países emergentes e em desenvolvimento, reforçando a necessidade de uma nova ordem multipolar mais justa e representativa.
Ao mesmo tempo, há expectativa sobre um possível encontro de bastidores com Volodmir Zelenski, presidente da Ucrânia. Lula e Zelenski não conversam há meses, embora o brasileiro tenha mantido contatos recentes com Vladimir Putin, presidente da Rússia.
Uma crise histórica
Diplomatas classificam a atual situação como a mais grave crise entre Brasil e Estados Unidos em dois séculos de relações. Para especialistas, a decisão de Trump de sancionar autoridades brasileiras escancara o choque aberto de agendas políticas entre os dois países, colocando Lula diante do desafio de responder com firmeza sem comprometer interesses econômicos e comerciais estratégicos.
Com a escalada de tensões, a expectativa em Nova York é de que o discurso de Lula na ONU seja um dos mais aguardados da sessão de abertura, podendo definir os rumos da relação entre Brasília e Washington nos próximos anos.